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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Cor de burro quando foge


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Cor de burro quando foge.

Eu sou.

Antes eu achava que era mestiça (a lenda das três raças fundadoras do povo brasileiro, lembra?).

Depois de um pouquinho de formação política descobri que era “parda”, cor de burro quando foge, branca suja. Um ser destinado a colher certos privilégios derivados de estupros, cárceres privados e acasos genéticos.

Diante dessa verdade insuportável, e compreendendo que me admitir não-branca ou não-negra consistia em um emcimadomurismo baixo, decidi então que sou, definitivamente uma mulher negra. Casei com um homem negro e minhas meninas usam black power.

Entretanto – sempre há contradições, se lembram? Estamos no Capitalismo – minha negrice desbotada, meus olhos que, diante da luz se desdobram num verde-amarelo de girassol castanho, causam estranhamento e contestações tanto de pessoas negras quanto brancas.

Então, vou dizer uma coisa: Se uma mulher negra, de pele escura, vier me dizer que eu eu não sou negra e não deveria, portanto, reivindicar direito a cotas, nas universidades, por exemplo, procurarei não contrariar. Não que eu já tenha sido beneficiada com cotas para negras alguma vez, não oficialmente. Mas admito que o desbotado da minha melanina diminui o impacto do racismo e permite até que eu tenha certos privilégios que as mulheres de pele efetivamente escura não têm.




Um bom exemplo desses privilégios é a “boa aparência”, mais próxima do fenótipo branco, portanto, menos discriminada. Então, aceito as críticas das irmãs negras.




Mas… sempre tem um senão… Se uma pessoa branca vier me dizer que não sou negra, aí o bicho pega… aí eu vou querer que ela divida comigo todos os privilégios que como “não-negra” eu teria direito. Vou querer nunca ter sido discriminada pela cor da minha pele, nunca ter desejado cabelo liso e loiro e me mutilado por isso, nunca ter passado fome, nem morar na favela. Vou querer que meus parentes não tenham sido assassinados pela polícia e que meu salário corresponda ao padrão de salário de homens brancos.






Se achar que eu sou branca… trata de mandar de volta os privilégios que me foram negados.

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