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domingo, 29 de dezembro de 2013

Das contradições do capitalismo II - PCC e a paz nas favelas


O PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL “PCC” E A PAZ NAS FAVELAS

sobre a redução de 80% no índice de homicídios

Durante duas décadas e meia (de 80 a 2005) as periferias de São Paulo viveram o que podemos chamar de seus “piores anos” no que tange aos diversos tipos de violência. Porém, mesmo estando os pobres completamente abandonados pela estrutura do Estado, de maneira geral, só conseguíamos enxergar um tipo de violência: O homicídio. Por isso, o homicídio, e as tentativas de, ocuparam nosso imaginário durante todos esses anos. Não é à toa que nosso vocabulário é fortemente influenciado por questões ligadas à morte e às armas de fogo. Por exemplo, quando queríamos nos referir ao fim de algo, utilizávamos expressões como: “foi pro saco” ou “subiu”. E não as utilizávamos somente em momentos pesados, mas também em horas tranquilas, ou de admiração, como a expressão “o cara é pá”, sendo que esse “pá” obviamente imitava o som do disparo de uma arma.
Foi também nessa época que os cemitérios municipais se tornaram populares. Para termos uma ideia do índice de violência, em Heliópolis, bairro do Ipiranga, em um só final de semana foram assassinadas 18 pessoas e, no Jardim Ângela, chegou a morrer 60.
O Estado, por sua vez, nunca investigava os homicídios, pelo contrário. Fazia vista grossa. Na delegacia, a conclusão, sem nenhum tipo de investigação, era sempre a mesma: “guerra entre quadrilhas”. Sem exageros, afirmo que conheci mais de 200 pessoas assassinadas e menos de 5 homicidas presos (muito diferente dos assaltantes que sempre acabavam encarcerados). Será que é porque o Estado só investiga realmente aquele tipo de crime que envolve “patrimônio”?! (Alguém ainda tem dúvidas quanto a isso?)
Mas, voltando aos assassinatos, o que permitia que seu número fosse tão assustador era o fato de que muitas pessoas possuíam algum tipo de arma de fogo e não havia nenhum tipo de poder soberano para impedir que elas simplesmente resolvessem usar sua arma após uma discussão trivial no bar. Todos sabiam que não haveria investigação policial e que era só fugir do flagrante para depois retomar a vida normal. Outra implicação era que os homicidas se respeitavam entre si e raramente algum ensaiava se tornar soberano, de forma que, desde que um não se metesse com o outro, poderiam agir livremente oprimindo a quem não tivesse também uma arma.
Tudo isso fazia com que as pessoas oprimidas o fossem por diversos agentes.
A maior parte das pessoas que comprava uma arma e tinham coragem de usá-la para matar eram jovens abaixo de 20 anos que, na maioria das vezes, também acabavam assassinados perto dos 20. Estávamos abandonados num território cheio de jovens com baixa expectativa de vida, baixa autoestima e uma arma na cintura.
Nesse período, duas armas se tornaram parte do nosso cotidiano: O revolver calibre 38, que tomou apelido de “três oitão”, ou “canela seca”, e a pistola calibre 380 que ficou conhecida como “PT”, ou “quadrada”. Primeiro se tornou popular o “oitão” de, em média, seis tiros, e depois a “PT” (semiautomática) de 16 tiros. Da para entender a diferença né ? A “PT” não só tem mais poder de fogo, como, pelo fato de ser semi automática, é mais difícil de controlar, além de ser mais difícil acertar um alvo com ela. Por isso, quando usada, causava muito mais estragos que o oitão (a “Taurus” nos deve essa, pois fabricou, à revelia, essas armas, que muito contribuíram com o extermínio de boa parte daquela geração).
Atualmente, os assassinatos dentro da periferias  paulistanas se tornaram raros, quando comparados com “os piores anos”. Boa parte dos casos de homicídios que ocorrem hoje nas favelas contam com o envolvimento da PM.
O motivo dos assassinatos terem diminuído nas periferias de São Paulo está diretamente ligado ao surgimento do Primeiro Comando da Capital o “PCC”. E a explicação é simples, diferente das polícias militar e civil que davam de ombros para as famílias que acabavam de perder um ente querido, o PCC resolveu que iria se estabelecer como poder soberano e, em determinadas situações, tomava as dores das famílias. A partir daí constitui-se uma hierarquia e uma burocracia. Pois, uma vez que havia um poder soberano, este deveria ditar as novas regras (lembrando que a regra antiga era: “não mexe comigo que não mexo contigo”). E é claro que como o homicídio era  o nosso maior problema, seria preciso discutir aquela realidade.
Então, com a nova e necessária regra, se impôs o famoso “debate” antes de qualquer execução. De forma que, hoje, a regra principal em relação a homicídio é: ninguém pode cometê-lo sem antes “debater”. No debate, forma-se um tribunal onde o caso é discutido e o veredito é dado por um membro do PCC ou alguém muito ligado à facção. Caso o veredito seja favorável ao “réu” a outra parte não poderá puni-lo, a menos que o faça e depois desapareça da região. Caso uma pessoa mate a outra, sem ter passado pelo "debate", é muito provável que sofra retaliação. É simples assim. Essa simples estrutura inibiu às pessoas de saírem matando “à vontade”.
A grande questão é que devemos comemorar a redução em 80% dos assassinatos, mas corremos o risco do surgimento de um grupo tão forte quanto o PCC e que lhe imponha uma guerra semelhante àquela vista no RJ, onde o poder soberano de um grupo é frequentemente destituído por um grupo rival. E o maior problema disso, nós sabemos, é que quando este novo grupo se estabelece no novo território costuma tomar de assalto até a casa dos antigos moradores para estabelecer sua nova casa. Ou seja, ressuscitam o terror.

Um comentário:

  1. sim... e há possibilidade outra qe não facção e poder por violência ? ou poder é violento ? O PCC já está nas entranhas do Estado ? questões que me passam ... saudades de você Dinha ... beijo e seguimos na luta

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