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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Zero a zero: 15 poemas contra o genocídio da população negra.

"toda semelhança com a realidade não é pura ficção"




Trata-se de um livro de poemas que se dispõe a ser arma e escudo na luta da população negra pela sua sobrevivência, contra o seu genocídio e a favor da esperança. É também um livro que destaca o sofrimento de nós que permanecemos, apesar das cabulas, candelárias e outras tantas chacinas (como a de Osasco/Guarulhos) incapazes de comover aos tantos cidadãos e cidadãs “de bem” deste nosso país.


Mas a obra chama a atenção também para o revolucionário gesto feminino  de parir em um país com amplo histórico de tentativas de eliminação do nosso povo (desde a esterilização de mulheres até os assassinatos e o nosso superencarceramento). Nós que séculos antes abortávamos, praticávamos infanticídio para não gerarmos lucro ao sinhozim, agora pensamos mil vezes e oscilamos entre o direito ao aborto e ao parir - ambos a contragosto dos patrões e do patriarcado -, rindo do paradoxo das “minorias”, em meio a um projeto de país que se queria todo branco até o ano limite de 2012.

 
E, se não somos minorias, é exatamente porque “nas barrigas das meninas/ inda o sol ainda/ brilha – rancoroso carnaval”,  é porque seguimos repondo os ricardos, os rivaldos, os soldados... a ira e a lira...
Pois que Zero a zero é, assim, uma obra que se propõe a ser pedagógica e, nesse sentido, recupera a função comunitária que a arte teve e ainda tem em sociedades não capitalistas. Além disso, sua própria aparência (fino, frágil, de capa com pouca gramatura) de pronto nos sugere estarmos diante de um panfleto. E sim, é um livro para ser panfletado. Para circular, para ser baixado e lido.

Por fim, vale dizer que os poemas nos revelam também homenagens a nossos mortos, na medida em que toda semelhança com a realidade não é pura ficção: os nomes citados na obra existiram, existem nas nossas memórias. Eram  amigos, parentes, vizinhos.


Assim, além de cuidar da memória dos nossos, Zero a zero, com sua dureza macia, ilumina nossas ideias e direciona nossas lutas:


Zero a zero

Nossas mães criam seus filhos
para serem meninos
e fortes.
Entretanto o consumo
entretanto o Estado
 – cão magro -
roem seus ossos tão fundo
que até o descanso
o último
tem que ser autorizado.

O Estado roeu
Rivaldo
Jefferson
Ricardo
e guardou outros tantos ainda.

Depois voltou pra olhar a casa
de orelhas surpreendidas.

Nesse intervalo
Amanda gerou
Ricardo
Angelina gerou
Rivaldo
salvou Jefferson no Fagner e dobrou, por precaução, a quantidade de Lucas.

De olho, o cachorro gordo percebe
nas barrigas da família
pequenas revoluções
repondo a morte com vida.
Repondo Ricardo a Ricardo
Rivaldo a Rivaldo
dobrando os soldados
perpetuando a ira

e a lira...

Dinha é autora dos livros De passagem mas não a passeio (2006/2008) e Onde escondemos o ouro (2013).
 

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