Já faz tempo que o meu poema ganhou vida própria. Soube, por fontes extraoficiais, que ele até viajou para outros países. Ganhou mais vida no Sarau dos Mesquiteiros com suas esquetes teatrais e até virou clipe poético - clipoético - nas mãos do Rodrigo, Mesquiteiro/as e Mundo em Foco. Re-compartilho o poema e o clipe.
De Aqui de Dentro da Guerra I - Mataram Francisco Ah. Ser protagonista. Ser um símbolo. - É mais um ou menos um? Escrevo pra corromper as estatísticas. Escrevo para alterar o sentido de estar sozinha. E Adélia? Passou a noite velando o corpo. - Só tiro de Doze. E o que dói nem é a morte. É a guerra. É somar os corpos e notar a baixa sempre mais humana. A última guerra romântica acontece por aqui: São Paulo, Brasil, Fundão do Ipiranga Jardim São Savério Parque Bristol, Bristão. Mil e uma noites a mil. A milhão. - Procurou, né mãe? Ouvi os tiros mas não dei ouvidos. Morreu alguém. Não fui ver. É comum. Era só isso. De uma festa cantei, dancei, ri ( e isso não é força poética de quem imita poesia e põe verbos em paralelismos). Ri muito a noite toda. Terminou de madrugada os tiros subindo a escada: - Dinha, mataram Francisco. II - Daí a idéia de Guerra Romântica: essa guerra cara a cara, mano a mano, de mãos bem maiores que o corpo, de dedos se assassinando. A última não foi a Primeira Grande Guerra. A última é a que acontece por aqui: Que de pequena foi crescendo, pulando os muros dos guetos, se alongando, se multiplicando, como um câncer bem nutrido, como um vírus bem alojado, ora dormindo, ora explodindo, ora abafado, mas nunca inerte. Sempre resistente, sempre bem transmitido pelo contato das mãos, dos olhos, dos pés que se tropeçam, dos namorados e namoradas, do fluxo capitalista, da tela, do maço de cigarros... III - De Aqui de Dentro da Guerra De aqui, de dentro da guerra qualquer tropeço é motivo. A morte te olha nos olhos te chama, te atrai, te cobiça. De aqui, de dentro da guerra não tem DIU nem camisinha que te proteja da estúpida reprodução da fome, da miséria da ínfima estrutura que abafa o cantar das favelas antigas senzalas modernas. Cemitério Geral das pessoas. De aqui, de dentro da guerra eu grito pra ser ouvida. De aqui, de dentro da guerra eu me armo e policio. De aqui, de dentro da guerra é que eu protejo meus sonhos pra não virar a cabeça pra não virar a palavra pra não virar estatísticas. Dinha
Muita gente tem se perguntado qual o problema do novo Clipe "Vibe da nite" do rapper carioca MV Bill. Eu não vou nem compartilhar aqui, que é pra não dar ibope... mas vou dizer, em minha opinião, qual é o problema.
Sem querer esgotar a discussão, pelo contrário, gostaria de ouvir mais sobre a opinião de outras pessoas, penso que MV Bill lança esse clipe em um momento chave do movimento Hip Hop. Num momento em que os discursos que sempre nos inspiraram, como as críticas à Rede Globo, por exemplo, perdem feio para as ações contrárias a esse mesmo discurso: são os membros dos Racionais MC´s se abraçando publicamente ao Luciano Hulk, é o Emicida se somando ao funk pra reforçar o velho discurso machista - que é do Hip Hop, mas é antes de toda a sociedade. Gente que refutou feio o sistema e hoje ganha a telinha e é apanhado por ela...
O discurso cheio de "democracia racial, social, cultural e econômica" que preenche o clipe, a letra e tudo o mais, do nosso rapper, não cabe. Ainda não cabe fazer festa enquanto nosso povo continua sendo sistematicamente exterminado.
Aquela festinha cheia de gente branca parece ofensivo até... alienado demais pra quem já foi no Domingão do Faustão e deixou ele em choque ao cantar contra a patrocinadora do nosso genocídio
Embora eu pense que ele estivesse perdendo seu tempo, que ele nem deveria estar ali na TV, esse vídeo sim, vou compartilhar... Só pra quem não viu ainda sentir a diferença do discurso...
Sei lá... vai ver que a vida do Bill melhorou tanto que ele virou branco... sociologicamente branco..
E então o povo dele deixou de ser vítima de genocídio... Será?
(Atenção: Originalmente este posta falava de uma situação ridícula de racismo, mas foi EDITADO PRA NÃO DAR IBOPE AOS TROUXAS.
Fiquemos apenas com a música do Comando DMC, que nos representa, sem dúvida, e com o início da postagem.
Essa é a pergunta que fez o grupo de rap Comando DMC na música "São Paulo está se armando". Era por volta dos anos 80. Ao mesmo tempo em que o nosso país vivia a tal reabertura política, os grupos nazistas, também conhecidos com White Power, causavam tormento às pessoas pretas, pobres e nordestinas das periferias paulistanas. Era também a época em que diversos grupos de rap formavam uma legião de seguidores e seguidoras ao reforçar nossa autoestima e negritude em suas letras, ao nos formar e informar sobre os tais "racistas otários".