Clique para dar um up!

PORQUE NÓIS NUM TÁ AQUI PRA SER LEGAL
Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de outubro de 2014

Poesia, Propaganda e outras Pelejas




 Poesia, Propaganda e outras Pelejas
 Durante os anos 80, umas das poucas coisas que nós os jovens pobres tínhamos era a poesia, para nos ajudar a discutir nossos problemas existenciais. Mas não era qualquer poesia, pois a que pertencia ao samba nos era negada pelos meios de comunicação, os quais lhes atribuíam um caráter maldito, uma vez que sempre o ligavam à malandragem ou à boemia. Nem era a poesia do pagode, que sempre nos fora apresentada como tosca. Era pois, a poesia do rock brasileiro, expressada por bandas como Legião Urbana e Engenheiros do Hawai. Essa sim foi a poesia que nos ensinaram a admirar.
Apesar de essa poesia ser toda amparada por um tipo de rock feito pela classe média brasileira, ela também nos tocava. Devido à nossa carência, nós, os jovens pobres, éramos forçados a adotá-la para expressar nossa rebeldia. Porém, essa poesia não dialogava com os nossos verdadeiros problemas de modo que adotávamos os problemas de outros. Era comum, por exemplo, vermos adolescentes da favela cantando que “... aos 13 anos de idade eu sentia todo o peso do mundo em minhas costas...”, quando na verdade o sentiam praticamente desde que nasceram.
O maior problema dos jovens pobres terem de se expressar por meio de uma poesia de classe média é que, como esta não nos representava de fato, também não nos conferia “VOZ ATIVA”. Assim, quando gritávamos, saía de nossas bocas frases que só entendíamos genericamente, reivindicações que não eram exatamete as nossas. Por isso enquanto gritávamos “...a gente quer bebida diversão e arte...”, deixávamos de gritar “.. racistas otários nos deixem em paz...”.
Antes do rap o discurso que saía da boca dos jovens e das jovens negras era nada mais que um discurso forjado, de uma poética que se baseava em princípios liberais - e por isso não tinha a luta de classes ou o racismo como tema.
Liberal que era, esse tipo de poesia bradava raivosamente como se fosse revolucionária, por isso nos iludia. Um bom exemplo disso é a figura do Lobão, cujo discurso parecia rebelde, mas era, como verificamos facilmente hoje, liberal).
Havia naquele momento um buraco que impedia que @ jovem pobre se encontrasse consigo. Ao tentar fazê-lo o que via no espelho era um jovem de classe média, uma vez que não havia poesia que cronicasse sobre a vida dos pobres.
E é exatamente essa capacidade de cronicar que faz com que no final do anos 80 o Hip Hop desponte com tanta força, pois era uma crônica reivindicatória. O Hip Hop propõe uma poesia tão significante para o jovem pobre que literalmente causa a extinção daquele tipo de banda de rock tradicional (duas rádios são fechadas) e impõe um novo modelo de rock brasileiro, que muitas vezes traz à frente um sujeito que canta como um MC. Daí o sucesso de bandas como O Rapa ou Charlie Brow Jr.
Daí em diante, toda vez que o rock quiser ser rebelde terá de recorrer ao rap (será por isso que o Lobão odeia o Racionais?).
A nova poesia trazida pelo rap se parecia tanto com a crônica, ao narrar o nosso cotidiano, que nos forçava a perceber o ambiente político e identificar quais eram nossos reais problemas (por isso, em seu melhor momento, ao falar de nós, Thaíde nos chamou de Brava Gente, e todos os generos músicais populares, do reggae à bossa nova, tiveram de se dobrar ao rap, quando o assunto era política e desigualdade.
Quando em 1990 surgiu a música Voz Ativa, realmente a juventude negra se autoafirmava, passava a ter "voz ativa", e era visível que nossa noção de classe melhorara. Na música/poesia que agora admirávamos, reconhecíamos a narrativa de uma verdadeira saga, como  a que havíamos contemplado antes em Faroeste caboclo. Em seu lugar passamos a ouvir Um homem na estrada.
E a vergonha da favela foi sendo trocada pelo orgulho da quebrada - que passara, com a contribuição da poesia do rap, a ser vista não como terra de bandidos, mas como local da classe trabalhadora.
Mas a contribuição mais importante para nós foi o surgimento da consciência negra, antes totalmente negada pelas bandas de rock brasileiro. Entre elas quem mais tematizou a questão negra foi a Legião Urbana e, mesmo assim, apenas duas vezes e sem sequer citar a palavra negra ou negro. Primeiro quando fala “Ei menino branco o que é que você faz aqui...”, depois quando, em Faroeste Caboclo, fala: “... a discriminação por causa da sua classe, sua cor...”. Mas não se diz qual cor é exatamente essa.
Assim, a banda que mais falou de negritude, criou uma música chamada Índios, mas não uma chamada Negr@s. Na esteira romântica, quando tentavam se encontrar com o Brasil só enxergavam os povos indígenas.
Coube ao rap plantar a ideia de negritude e conciencia negra. Ideia ainda melhor que aquela plantada por Tim Maia nos anos 70, (é óbvio que aquele momento do Tim Maia tem muita importância para o momento do rap, tanto é que o disco Tim Maia Racional nomeia o grupo de rap Racionais).
Mas como falávamos anteriormente, havia um buraco que impedia que @ jovem negr@ se encontrasse consigo e, de certa forma, podemos entender que esse buraco que separa o Tim Maia Racional dos Racionais MC's era um buraco ocupado pelo rock brasileiro, pois este, como observamos, não pautava os problemas do povo preto. Foi justamente por meio da poesia do Racionais que o povo preto passou a fazer parte da pauta.
Mas a poética dos Racionais era daquele tipo “impoética”, longe dos padrões, mas com alta capacidade de diálogo com jovens pret@s, @s mais pobre do pedaço. Além disso, ela alcançava jovens periféric@s de maneira geral e até mesmo os filhos e as filhas da classe média - cujos pais vieram, muitas vezes do Nordeste e deram um duro danado pra lhes ofertar aquela vida de carro mil e casa na Praia Grande, reduto de férias da classe trabalhadora. Essa classe média, com ajuda do rap, tinha, às vezes, surtos de realidade e percebiam qual era sua verdadeira classe. Em busca de aceitação e representação, ampliavam frases típicas do povo favelado como, por exemplo, o “tá tirando a favela”, que se transformava em “tá tirando a favela e as casinha em volta”.
Essa poesia do rap também ajudou a decretar o fim das piadas racistas (que, entretanto, agora, em momentos de poesia mais frouxa, retorna às vezes nos free styles – dado que nossos novos poetas/cronistas, muitas vezes não apenas querem ir à TV – algo inconcebível no auge do Hip Hop -, mas também assitem a programas que estão entre os piores do gênero televisivo, como, por exemplo pânico e big brother, sendo por eles formados.
Isso mesmo camaradas, tivemos uma reviravolta.
A poesia que nos embalava voltou a ser sem sentido. Virou propaganda.
A mentira da técnica e a mentira do letramento começa agora a matar o peixe que de cartola atolada, fora d'água, se esqueceu do que precisa para respirar. Esquece-se de que não serve qualquer ar e nem percebeu que ou volta pra água e vive ou fica na babilônia e morre.
Sim foi o letramento um dos corruptores do rap, pois ele o aproximou de um suposto público “mais qualificado”, classemediano que terminou por envaidecer nossos rappers. Parte do Rap nacional hoje já faz músicas muito parecidas com aquelas feitas pelas bandas de rock do começo dessa história. Parece que os jovens da classe média recuperaram a sua velha poética ana-seus-lábios-são-labirintos-ana.

sábado, 26 de julho de 2014

Nosso povo é que move o país

De acordo com Mike Davis, autor de Planeta Favela, a partir dos anos 2000, a maior parte da população mundial tornou-se urbana. Para ele, a tendência é que o nosso mundo se torne uma imensa favela.

Então, sabe aquela moça do metrô? Aquela de cabelos muito lisos e brilhantes? E aqueles rapazes vestidos de social? E todas aquelas pessoas de pele preta, parda, gordas e magras? Aquelas que trabalham nos telemarketigns, são caixas do extra, carrefour, compre-bens da vida?
Esse povo que enche os ônibus e trens, e também conduz os coletivos?
O povo que enche as roças de grãos, frutas, legumes e as granjas e frigoríficos de carne branca e vermelha;
Sabe esse pessoal que constrói, atende e toma conta da cidade e do campo?
Então, são todos favelados.
Disfarçados, para evitar o preconceito, poucos imaginam que esse pessoal alinhado mora, muitas vezes, em barracos cravados no meio das inúmeras favelas espalhadas pelo país.
Se você não acredita, nem precisa. A gente sabe o que está falando e sabemos também que a história vai registrar o que já estamos narrando.



É assim que a favela tem tomado conta.
Toda a classe trabalhadora atua diretamente na construção do capital mundial. São os pobres, construindo com suas próprias mãos, aqueles que geram os valores. O trabalho feito por outras classes - por exemplo o de nos supervisionar ou gerenciar - não é gerador de valor. O que fazem é administrá-lo, para promover a melhor apropriação do senhor, da sinhá.



E então, porque será que esse povo levou fama de preguiçoso e ladrão?



Se foi ele que fez o PIB brasileiro subir de 770 bi de dólares nos anos 80 para 2,3 tri no momento atual – pois, como sabemos, o o PIB brasileiro pouco cresce com a venda de produtos tecnológicos, é com a venda de matéria prima e de hortifrutgranjeiros que crescemos, sabemos também qual a cor da maior parte das pessoas que operam nas roças e granjas.
Se foi ele quem construiu toda cultura nacional desde a música até a culinária, se no esporte tem uma contribuição fundamental

Por isso, é por ser o único gerador de valor e ter esse valor roubado é que inventou-se os mitos de que não prestamos. Assim, com a mente dominada, com o roubo legitimado (chamado de propriedade privada, direitos sobre a propriedade, contratos de trabalho e outros contratos sociais), já não é preciso usar a força para lesar nosso povo - que de preguiçoso não tem nada. Nem de ladrão, é óbvio.

Nosso povo, repetimos:
Constrói e mantém a riqueza e a cultura do nosso país.
É responsável pelo desenvovimento do PIB brasileiro.
É responsável por nossa vitalidade cultural e esportiva.
É expropriado e por isso, apenas por isso, prosegue favelizado.