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quinta-feira, 22 de maio de 2014

É guerra!

Hoje aquele jornal tava de doer... é só luta de classe na parada.
É um tal de chamar nosso povo de vagal, de carrasco, criminoso e outras alcunhas gentis, que não acaba mais.
 Lógico, gente, fazer greve não é crime... crime é não ser pelego e recusar migalhas.
Aliás, segundo nosso prefeito, isso nem é mais crime... é guerra... de guerrilha.
De repente, meus vizinhos e vizinhas, meu professores e colegas, a até o povo que se acaba no Dapena virou guerrilheiro, viraram guerrilheiras...
Outro dia, você sabe que a contradição é
uma das marcas desse sistema, li no mesmo jornal o caríssimo Safatle citando um fulano de tal, o bambambam  Warren Buffett, que dizia assim: 

"Quem disse que não há luta de classe? Claro que há, e nós estamos vencendo". 
Caros editores, ilustríssimo prefeito, fiquem tranquilos...
Vocês ainda estão na vantagem.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

De aqui de dentro da guerra

Já faz tempo que o meu poema ganhou vida própria. Soube, por fontes extraoficiais, que ele até viajou para outros países. Ganhou mais vida no Sarau dos Mesquiteiros com suas esquetes teatrais e até virou clipe poético - clipoético - nas mãos do Rodrigo, Mesquiteiro/as e Mundo em Foco. 
Re-compartilho o poema e o clipe.





De Aqui de Dentro da Guerra

I - Mataram Francisco

Ah.
Ser protagonista.
Ser um símbolo.
- É mais um ou menos um?

Escrevo pra corromper as estatísticas.
Escrevo para alterar o sentido de estar sozinha.

E Adélia?
Passou
a noite velando o corpo.
- Só tiro de Doze.

E o que dói nem é a morte.
É a guerra.
É somar os corpos e notar
a baixa sempre mais humana.

A última guerra romântica acontece por aqui:
São Paulo, Brasil,
Fundão do Ipiranga
Jardim São Savério
Parque Bristol, Bristão.
Mil e uma noites
a mil.
A milhão.

- Procurou, né mãe?

Ouvi os tiros mas não dei ouvidos.
Morreu alguém. Não fui ver.
É comum.
Era só isso.
De uma festa cantei, dancei, ri
( e isso não é força poética
de quem imita poesia
e põe verbos em paralelismos).
Ri muito a noite toda.

Terminou de madrugada
os tiros subindo a escada:
- Dinha, mataram Francisco.

II -
Daí a idéia de Guerra Romântica: essa guerra cara a cara, mano a mano, de mãos bem maiores que o corpo, de dedos se assassinando. A última não foi a Primeira Grande Guerra. A última é a que acontece por aqui: Que de pequena foi crescendo, pulando os muros dos guetos, se alongando, se multiplicando, como um câncer bem nutrido, como um vírus bem alojado, ora dormindo, ora explodindo, ora abafado, mas nunca inerte. Sempre resistente, sempre bem transmitido pelo contato das mãos, dos olhos, dos pés que se tropeçam, dos namorados e namoradas, do fluxo capitalista, da tela, do maço de cigarros...

III - De Aqui de Dentro da Guerra

De aqui, de dentro da guerra
qualquer tropeço é motivo.
A morte te olha nos olhos
te chama, te atrai, te cobiça.

De aqui, de dentro da guerra
não tem DIU nem camisinha
que te proteja da estúpida reprodução
da fome, da miséria
da ínfima estrutura
que abafa o cantar das favelas
antigas senzalas modernas.
Cemitério Geral das pessoas.

De aqui, de dentro da guerra
eu grito pra ser ouvida.

De aqui, de dentro da guerra
eu me armo e policio.

De aqui, de dentro da guerra
é que eu protejo meus sonhos

pra não virar a cabeça
pra não virar a palavra
pra não virar estatísticas.

Dinha

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Trégua

Quem sobreviveu ainda se lembra do tempo em que São Paulo era um campo de guerra. Agora, parece ser o fim desta que é uma das mais cruéis facetas da luta de classes, o fim dos crimes de pobres contra pobres.
Parece ser o fim dos assassinatos cotidianos, do sangue escorrendo ou já seco nas vielas e ruas das quebradas. É o fim das caravanas até os cemitérios nos dias de finados. É quase o fim também das vaquinhas pro paletó de madeira e pro ônibus.
Chega de mães com seus 35kg, perambulando pelas ruas em busca de um abraço. Se pá, já era  também as metáforas com significados de morte.
Chega de luto.
Em São Paulo, nas quebradas, as pessoas estão se matando 80% menos do que há dez anos atrás. Parece que estamos diante de uma trégua, um milagre que não foi feito pelas autoridades competentes, por nenhuma política pública.
Quem mora nas quebradas sabe que, aqui, os assassinatos são sempre entendidos pelo Estado como guerra entre quadrilhas. Por isso, não são investigados, o que dá ao homicida uma espécie de privilégio, quando comparado ao tratamento dado a outros criminosos como assaltantes, por exemplo.
Então, por duas décadas (os anos 80 e 90), os homicidas agiram livremente nas favelas de SP. Não são raras as histórias de assassinos extremamente poderosos no seu local de moradia. Algumas regiões anotavam a cifra de 60 assassinatos em um único mês e o Estado nada fazia, nada fez – embora diga o contrário.
Agora, nas favelas de SP, qualquer morador maior de 20 anos sabe explicar o motivo da redução de mortes. Mas isso interessa a poucos, pois a favela é pouco estudada, exceto por antropólogos. Estes, diga-se de passagem, muitas vezes a estudam de forma irresponsável  e, muitas vezes, sequer acreditam que somos verdadeiras comunidades.
Munidos de um método minimamente coerente, perceberíamos que a favela representa uma parcela da classe trabalhadora que realiza os trabalhos mais duros, pelos menores salários, sem a solidariedade da classe média, e sem a proteção do Estado.
Mas agora, correndo menos risco de sermos assassinados.
Ainda assim, é triste.

DU