Clique para dar um up!

PORQUE NÓIS NUM TÁ AQUI PRA SER LEGAL
Mostrando postagens com marcador homicídios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homicídios. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

"Ouço dizer que há tiroteio ao alçance do nosso corpo"


"Se correr o bicho pega
se ficar, extermínio come.
Porque primeiro matam
pra depois saber seu nome.
E sendo assim
paz nunca mais"

Consciência Humana



De domingo pra cá, após a morte devidamente noticiada de um PM no nosso bairro (Parque Bristol), já soubemos de outros três assassinatos de civis.
Corre o boato de que sete pessoas já foram executadas, uma delas, inclusive, tendo sido morta no terreno do Maloca Espaço Cultural.
Esse post é só pra registrar nossa indignação e também para avisar aos e às desavisadas, que o bicho está solto e que estamos a sós nessa guerra.
Contra o Estado/Elite genocida, só mesmo a consciência de classe será ferramenta capaz de nos proteger.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

De aqui de dentro da guerra

Já faz tempo que o meu poema ganhou vida própria. Soube, por fontes extraoficiais, que ele até viajou para outros países. Ganhou mais vida no Sarau dos Mesquiteiros com suas esquetes teatrais e até virou clipe poético - clipoético - nas mãos do Rodrigo, Mesquiteiro/as e Mundo em Foco. 
Re-compartilho o poema e o clipe.





De Aqui de Dentro da Guerra

I - Mataram Francisco

Ah.
Ser protagonista.
Ser um símbolo.
- É mais um ou menos um?

Escrevo pra corromper as estatísticas.
Escrevo para alterar o sentido de estar sozinha.

E Adélia?
Passou
a noite velando o corpo.
- Só tiro de Doze.

E o que dói nem é a morte.
É a guerra.
É somar os corpos e notar
a baixa sempre mais humana.

A última guerra romântica acontece por aqui:
São Paulo, Brasil,
Fundão do Ipiranga
Jardim São Savério
Parque Bristol, Bristão.
Mil e uma noites
a mil.
A milhão.

- Procurou, né mãe?

Ouvi os tiros mas não dei ouvidos.
Morreu alguém. Não fui ver.
É comum.
Era só isso.
De uma festa cantei, dancei, ri
( e isso não é força poética
de quem imita poesia
e põe verbos em paralelismos).
Ri muito a noite toda.

Terminou de madrugada
os tiros subindo a escada:
- Dinha, mataram Francisco.

II -
Daí a idéia de Guerra Romântica: essa guerra cara a cara, mano a mano, de mãos bem maiores que o corpo, de dedos se assassinando. A última não foi a Primeira Grande Guerra. A última é a que acontece por aqui: Que de pequena foi crescendo, pulando os muros dos guetos, se alongando, se multiplicando, como um câncer bem nutrido, como um vírus bem alojado, ora dormindo, ora explodindo, ora abafado, mas nunca inerte. Sempre resistente, sempre bem transmitido pelo contato das mãos, dos olhos, dos pés que se tropeçam, dos namorados e namoradas, do fluxo capitalista, da tela, do maço de cigarros...

III - De Aqui de Dentro da Guerra

De aqui, de dentro da guerra
qualquer tropeço é motivo.
A morte te olha nos olhos
te chama, te atrai, te cobiça.

De aqui, de dentro da guerra
não tem DIU nem camisinha
que te proteja da estúpida reprodução
da fome, da miséria
da ínfima estrutura
que abafa o cantar das favelas
antigas senzalas modernas.
Cemitério Geral das pessoas.

De aqui, de dentro da guerra
eu grito pra ser ouvida.

De aqui, de dentro da guerra
eu me armo e policio.

De aqui, de dentro da guerra
é que eu protejo meus sonhos

pra não virar a cabeça
pra não virar a palavra
pra não virar estatísticas.

Dinha

domingo, 29 de dezembro de 2013

Das contradições do capitalismo II - PCC e a paz nas favelas


O PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL “PCC” E A PAZ NAS FAVELAS

sobre a redução de 80% no índice de homicídios

Durante duas décadas e meia (de 80 a 2005) as periferias de São Paulo viveram o que podemos chamar de seus “piores anos” no que tange aos diversos tipos de violência. Porém, mesmo estando os pobres completamente abandonados pela estrutura do Estado, de maneira geral, só conseguíamos enxergar um tipo de violência: O homicídio. Por isso, o homicídio, e as tentativas de, ocuparam nosso imaginário durante todos esses anos. Não é à toa que nosso vocabulário é fortemente influenciado por questões ligadas à morte e às armas de fogo. Por exemplo, quando queríamos nos referir ao fim de algo, utilizávamos expressões como: “foi pro saco” ou “subiu”. E não as utilizávamos somente em momentos pesados, mas também em horas tranquilas, ou de admiração, como a expressão “o cara é pá”, sendo que esse “pá” obviamente imitava o som do disparo de uma arma.
Foi também nessa época que os cemitérios municipais se tornaram populares. Para termos uma ideia do índice de violência, em Heliópolis, bairro do Ipiranga, em um só final de semana foram assassinadas 18 pessoas e, no Jardim Ângela, chegou a morrer 60.
O Estado, por sua vez, nunca investigava os homicídios, pelo contrário. Fazia vista grossa. Na delegacia, a conclusão, sem nenhum tipo de investigação, era sempre a mesma: “guerra entre quadrilhas”. Sem exageros, afirmo que conheci mais de 200 pessoas assassinadas e menos de 5 homicidas presos (muito diferente dos assaltantes que sempre acabavam encarcerados). Será que é porque o Estado só investiga realmente aquele tipo de crime que envolve “patrimônio”?! (Alguém ainda tem dúvidas quanto a isso?)
Mas, voltando aos assassinatos, o que permitia que seu número fosse tão assustador era o fato de que muitas pessoas possuíam algum tipo de arma de fogo e não havia nenhum tipo de poder soberano para impedir que elas simplesmente resolvessem usar sua arma após uma discussão trivial no bar. Todos sabiam que não haveria investigação policial e que era só fugir do flagrante para depois retomar a vida normal. Outra implicação era que os homicidas se respeitavam entre si e raramente algum ensaiava se tornar soberano, de forma que, desde que um não se metesse com o outro, poderiam agir livremente oprimindo a quem não tivesse também uma arma.
Tudo isso fazia com que as pessoas oprimidas o fossem por diversos agentes.
A maior parte das pessoas que comprava uma arma e tinham coragem de usá-la para matar eram jovens abaixo de 20 anos que, na maioria das vezes, também acabavam assassinados perto dos 20. Estávamos abandonados num território cheio de jovens com baixa expectativa de vida, baixa autoestima e uma arma na cintura.
Nesse período, duas armas se tornaram parte do nosso cotidiano: O revolver calibre 38, que tomou apelido de “três oitão”, ou “canela seca”, e a pistola calibre 380 que ficou conhecida como “PT”, ou “quadrada”. Primeiro se tornou popular o “oitão” de, em média, seis tiros, e depois a “PT” (semiautomática) de 16 tiros. Da para entender a diferença né ? A “PT” não só tem mais poder de fogo, como, pelo fato de ser semi automática, é mais difícil de controlar, além de ser mais difícil acertar um alvo com ela. Por isso, quando usada, causava muito mais estragos que o oitão (a “Taurus” nos deve essa, pois fabricou, à revelia, essas armas, que muito contribuíram com o extermínio de boa parte daquela geração).
Atualmente, os assassinatos dentro da periferias  paulistanas se tornaram raros, quando comparados com “os piores anos”. Boa parte dos casos de homicídios que ocorrem hoje nas favelas contam com o envolvimento da PM.
O motivo dos assassinatos terem diminuído nas periferias de São Paulo está diretamente ligado ao surgimento do Primeiro Comando da Capital o “PCC”. E a explicação é simples, diferente das polícias militar e civil que davam de ombros para as famílias que acabavam de perder um ente querido, o PCC resolveu que iria se estabelecer como poder soberano e, em determinadas situações, tomava as dores das famílias. A partir daí constitui-se uma hierarquia e uma burocracia. Pois, uma vez que havia um poder soberano, este deveria ditar as novas regras (lembrando que a regra antiga era: “não mexe comigo que não mexo contigo”). E é claro que como o homicídio era  o nosso maior problema, seria preciso discutir aquela realidade.
Então, com a nova e necessária regra, se impôs o famoso “debate” antes de qualquer execução. De forma que, hoje, a regra principal em relação a homicídio é: ninguém pode cometê-lo sem antes “debater”. No debate, forma-se um tribunal onde o caso é discutido e o veredito é dado por um membro do PCC ou alguém muito ligado à facção. Caso o veredito seja favorável ao “réu” a outra parte não poderá puni-lo, a menos que o faça e depois desapareça da região. Caso uma pessoa mate a outra, sem ter passado pelo "debate", é muito provável que sofra retaliação. É simples assim. Essa simples estrutura inibiu às pessoas de saírem matando “à vontade”.
A grande questão é que devemos comemorar a redução em 80% dos assassinatos, mas corremos o risco do surgimento de um grupo tão forte quanto o PCC e que lhe imponha uma guerra semelhante àquela vista no RJ, onde o poder soberano de um grupo é frequentemente destituído por um grupo rival. E o maior problema disso, nós sabemos, é que quando este novo grupo se estabelece no novo território costuma tomar de assalto até a casa dos antigos moradores para estabelecer sua nova casa. Ou seja, ressuscitam o terror.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Trégua

Quem sobreviveu ainda se lembra do tempo em que São Paulo era um campo de guerra. Agora, parece ser o fim desta que é uma das mais cruéis facetas da luta de classes, o fim dos crimes de pobres contra pobres.
Parece ser o fim dos assassinatos cotidianos, do sangue escorrendo ou já seco nas vielas e ruas das quebradas. É o fim das caravanas até os cemitérios nos dias de finados. É quase o fim também das vaquinhas pro paletó de madeira e pro ônibus.
Chega de mães com seus 35kg, perambulando pelas ruas em busca de um abraço. Se pá, já era  também as metáforas com significados de morte.
Chega de luto.
Em São Paulo, nas quebradas, as pessoas estão se matando 80% menos do que há dez anos atrás. Parece que estamos diante de uma trégua, um milagre que não foi feito pelas autoridades competentes, por nenhuma política pública.
Quem mora nas quebradas sabe que, aqui, os assassinatos são sempre entendidos pelo Estado como guerra entre quadrilhas. Por isso, não são investigados, o que dá ao homicida uma espécie de privilégio, quando comparado ao tratamento dado a outros criminosos como assaltantes, por exemplo.
Então, por duas décadas (os anos 80 e 90), os homicidas agiram livremente nas favelas de SP. Não são raras as histórias de assassinos extremamente poderosos no seu local de moradia. Algumas regiões anotavam a cifra de 60 assassinatos em um único mês e o Estado nada fazia, nada fez – embora diga o contrário.
Agora, nas favelas de SP, qualquer morador maior de 20 anos sabe explicar o motivo da redução de mortes. Mas isso interessa a poucos, pois a favela é pouco estudada, exceto por antropólogos. Estes, diga-se de passagem, muitas vezes a estudam de forma irresponsável  e, muitas vezes, sequer acreditam que somos verdadeiras comunidades.
Munidos de um método minimamente coerente, perceberíamos que a favela representa uma parcela da classe trabalhadora que realiza os trabalhos mais duros, pelos menores salários, sem a solidariedade da classe média, e sem a proteção do Estado.
Mas agora, correndo menos risco de sermos assassinados.
Ainda assim, é triste.

DU