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sábado, 10 de fevereiro de 2018

Oração Capital a quem não olha e já nem vê



Oração Capital a quem não olha e já nem vê 



"Eu recebi sei tic (quer dizer kit)
de esgoto a céu aberto e parede madeirite. 
De vergonha eu não morri, tô firmona, eis me aqui.
Você não, você não passa quando o Mar Vermelho abrir"

Meus.
Talvez a vida não se enquadre
na tela do smart
e nem a língua se caiba
no chip da net
na linha do fone
da operadora
de crédito
negativado

(nem a água chegou lá).

Meus! Talvez
o sonho é passado
no buraco abstrato
dos milhões de cadeados
e inúteis fechaduras
de casulos esmagados
por pés-de-pato
e outros milhões de bichos-otários.

Talvez só a tarde
na margem delimitada
se personalize em mágoas.
E talvez os segredos se choquem
com os deslizar das redes
pega-peixe,
cara-a-cara e outros temíveis
brinquedos.

Talvez a vida não caiba,
no curso que estás preparando.
Suponho
que essas linhas tortas
sejam parte dos seus prantos
(lágrimas de crocodilos dandies).
Só com a fé e
a inaudita com fiança,
sabemos,
no revés das armadilhas de todos os santos
plantaremos chagas e
não colheremos em cantos.

Pronto!

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Maria Zé Povo


Eu também sou!




























Maria Zé Povo dos Santos

caminha no meio da rua.

Vai compenetrada na vida.



Ela pensa no gargalo

da garrafa da cerveja



preta – doce -



que tomava quando teve seu primeiro

filho. Morto nas mãos da polícia.



A cerveja - era lenda? -

enchia seu peito de leite. O leite

enchia seu peito de espera. Esperança

cavada nas covas do rosto do filho

que sorria. 

(Maria Zé Povo dos Santos

todo dia acorda aos prantos


recolhe a angústia em caixinhas

e a saudade em álbuns

de fotografia)





Maria Zé Povo dos Santos

caminha pela avenida.

Vai ao ponto de ônibus e na carga

dos seus ombros organiza-se o dia.

Vai sozinha entre tantas. Oprimida

entre o trabalho, o transporte e a retina

capaz de enxergar mentiras



a quilômetros. Maria Zé Povo dos Santos

constrói países e lidera 
famílias.


É por isso que ela anda

compenetrada na vida.







terça-feira, 29 de setembro de 2015

Entre o celular, o poema e o pote de margarina: um Aplicativo Inteligente




Aplicativo Inteligente by Projeto Blue Beam


"Não quero um pote de manteiga ou um xampu, quero frear o maquinário que me dá rodo e Uru"
Eduardo Facção Central


- Qual que é desse muleque?
- I-phome.
  É a dele.





O que vc quer do mundo
Um poema ou um smartphone?

Um smartphone é claro.
Com ele eu escrevo poemas
Leio, escuto, vejo
Imagens relacionadas
E ainda compartilho
Faço inveja pros amigo
Finjo de bom menino
Salvo a água as crianças
o planeta inteirinho.

O que vc quer da vida
Um poema ou um nike ?

Um nike
E óbvio
A minha fome é do novo
Pão e poema é pouco
Pra quem quer compartilhar.
...

Um dia inda vai se criar
Um aplicativo
Sísmico
Pra tudo desmoronar
Pra se decifrar o outro
O jogo
O par
O não par.

AI-Deus.
Vai se chamar.

domingo, 19 de julho de 2015

Pipa no laço

 
Não sou o tipo que abandona a linha.

Antes de soltar o osso
eu 
   desço
         no 
         fundo
             do 
               poço
agarro com as mãos
prendo os dedos 
               e finco 
as unhas bem firme
no carretel de sonhos.

E quando ainda assim escapole
                                                             a prole
                                                                   o dom
                                                                      o mote
eu pego com os dentes
feito gata que pariu e quer fugir da gente.

E se os dentes se partem
assume a carne
da gengiva. E o maxilar se encaminha
chamando os ossos do crânio.

Nessa de agarrar a linha
com mãos, com dentes e estiras
e envolver os ossos
do crânio
no espanto 
cortante 
do vidro
moído

às vezes se perdem os dedos
às vezes se perdem os dentes,
às vezes se perdem as línguas.
Se perde também a palavra,
o poema. Só não se perde
o pipa.
Ás vezes.


sexta-feira, 3 de julho de 2015


Poema pouco poema
para o pobre rapaz que foi roubado três vezes e assim justifica o seu racismo

"Sem máscara ele até que não era tão estranho. Parecia gente. Parecia com tanta gente. Com toda a população do Brasil, esse país que também usa uma máscara de plástico para disfarçar a cara de pau que lhe permite vez em quando esquecer que está aqui a maior população negra fora da África."
Cristiane Sobral

Somos negras.
No feminino e no masculino.
Estamos em muitos lugares.
Na motorista do ônibus que nos leva e nos traz pelas veias da cidade.
Na atendente de telemarketing.
Na caixa de supermercado.
Na empregada doméstica.
Na escritora esquecida.
Na metalurgia.
Na dona de casa.
No rapaz que entrega as cartas.
Ainda que não se saiba.

No feminino e no masculino.
Estamos em muitos lugares
Pouco valorizados.

Mas isso não  dói em nada.

O chato é ter que ouvir os trouxas ruminando espasmos:
Três pretos lhe roubaram.
Logo,
pretos são safados.

O chato é ter que repetir feito gralha
o que o rapaz não viu (olhos fixos no código de barras):
a motorista que lhe levou pra casa
a que lhe atendeu a chamada
a que lhe deu o troco
a que lavou seu chão, seu choro
os versos
o cuidado materno.

Três pretos lhe roubaram
e ele só viu
o que vêem os otários
o que a telinha explica
o racismo injetado no cérebro como um cavalo
pisoteando a inteligência do pobre
rapaz cego e roubado.

sábado, 7 de março de 2015

Centenários Negros: Três lições de casa


(sobre o genocídio da nossa população)




Lição primeira: como nomear seu bebê


Era o primeiro neto
Destinado a ser mais velho
De uma linhagem de uns trinta.
A mãe resolvera chamá-lo
Aristides Ricardo
Nome imponente de filósofo
E rei – unidos numa nova
Personalidade.
Era o ano de mil
Novecentos e noventa e dois
Explodia nas rádios uma música
De uma alegria patética:
“Biluzinho tetéia”.
E o menino era tao gutiguti ti fofula nenê gluglu
Que o imponente Aristides
Ficou apenas

Bilu.

Lição segunda: como lidar com o fim do mundo

Era o ano de mil
novecentos e noventa e nove.

Pairava no ar uma angústia
dizia-se que o mundo

ia se acabar.
No ano seguinte o menino

começaria a ir  à escola.
Que ele queria ser padre.

Só que, de vez em quando,
se via nele uns gestos

de inquietação profunda:
Era um engolir em seco

um pescoço que se retorcia duro
as pernas que se balançavam muito.

Angústia menina e calada.
Que foi, Bilu? Não quero

Ir para a escola.
Mas a escola é legal

você vai aprender muita coisa
e pérolas e diamantes

os segredos mais profundos
saíam da minha boca

viajavam sete mares
dormiam em tantos castelos

planetas e povos distantes
mas não entravam em suas orelhas.

E aquela carga rara
esse mundo que se abria

mais pesava nos seus ombros.
Aristides resistia.

Contei sobre o mundo todo
que se escondia embaixo

das letras no subterrâneo
das confusas linhas dos livros.

Falei-lhe de amigos novos
e das chaves que estariam

à sua disposição na vida.
Ele olhou bem nos meus olhos

eu via
a angústia – sapo gordo

dançando na sua língua.
O menino engoliu com cuidado

antes de gritar aos prantos
a sua sentença única:

Mas eu não sei LEEEEEEEEEER!!!!!

Eu ri.
Mas chorei junto.

Lição terceira: como ressuscitar seus meninos


Era o ano de dois mil
e seis.
Aristides Ricardo Bilu

Não virara padre.
Aristides Ricardo
não virara filósofo.

Aristides Ricardo ganhara
uma certidão de óbito
com seu nome impresso em caixa alta.

Um dia, me contara com tristeza
que "o tempo passa devagar na escola"
e isso lhe destruía

e o ABC que aprendera. Aprendera
com a vida. Lição de morte,
com a polícia. Pássaro que voa

de noite e de dia.
Aristides Ricardo Bilu
Virou símbolo na família

do garoto que queríamos
e nenhum de nós podia
Ajudar.

Aristides Ricardo Bilu
de filósofo rei gutiguti
virou símbolo da luta

que ainda temos por fazer
pra tornar nossas escolas
espaços de vida, não morte

espaços de encanto
não cortes
onde o sonho, não a sorte

prolonguem as vidas
e perpetuem as memórias
dos nossos.


Dinha
Resultado de imagem para revista palmares centenários negros
 Acesse aqui a revista completa

sábado, 17 de janeiro de 2015

Notícia de Israel


Notícia de Israel: Pra lembrar o treze de maio em que perdemos tantos meninos na rua dois

Ainda não esquecemos o Maio de 2006
 

(Panfleto contra todos os homens-blindados-que-cagam-ouro-na-minha-fome-e-na-fome-da-minha-família) 

 
 
I
Anteontem, em algum lugar sem passado, eu via uns rapazes negros, bonitos, pintas de rappers (entretanto dançavam as danças de roda). Tão iguais e diferentes dos que hoje morreram nas mãos da polícia. Dos que ontem mataram "os polícia".
Era dia das mães e os tiros entraram nos meus ouvidos ao mesmo tempo em que imagens da gente toda que eu conheço e confio me passava pelos olhos
e rezas – mais com o corpo que com a lógica – me pesavam por cada um deles. Desordenadamente.
Mas, ai, esqueci de alguns!!!
e três mães acordaram sem filhos.
nem dormiram – o que diz mais.
E eu não ouvi notícia em nenhum telejornal.
Em casa, a recomendação: Dinha, não sai de casa, nem volta de madrugada que a polícia tá matando todo mundo.

II
Quem começou essa briga?
Quem está brigando com quem?
"Quem é marginal?
Quem é a lei?".
Polícia contra bandido?
Ou fardados contra sem farda? Como o jogo de "solteiro e casado", no primeiro dia do ano?
Bandido contra bandido.
Israel no meio, às onze e vinte da noite, voltando pra casa da mãe.
Explorado contra explorado.
III
Me mandem matar a polícia!
Eu vou, se isso trouxer
Israel,
Sandro,
Aristides,
Luciano,
Márcio,
Cometa,
Buiú
(toda a família de Elisângela)
Edmarcos e
Hilário
(toda os mortos dos CEDECAS)
de volta.
Me mandem matar os bandidos!
Eu vou, se me deixarem
matar todos os homens-blindados-que-cagam-ouro-na-minha-fome-e-na-fome-da-minha-família.

Eu mataria capitães do mato
Se eles não fossem de fato
Tão vítimas como são vítimas:
Os policiais fardados,
Os meninos sem camisa,
A mulher de volta pra casa,
Israel, no colo da mãe.

O fuzil de minha palavra
Precisa estar voltado
Pra verdadeira revolução.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Soldado Sebastião



É tarde, muito tarde.
Na boca da noite
madrugada come
solta
seu guisado de formiga e de farinha.
Soldado Tião tem as chaves
e lidera sua tropa sem elite.

Soldado Tião e seu molho de chaves
Soldado Tião e seu quepe e uniforme
Soldado Tião e inda mais seu revólver.

- Desce o beco não, Tião.
Zé Povo tilinta na entrada.
- Quem mora aqui é teu pai,
tua mãe, tua prole
e o teu coleguinha de escola
e tua tia e teus irmão.

- Desce o beco não, Tião.
Outra voz ameaça e implora:
- Teus sobrinho tão dormindo
tuas tias já fizeram
o café. Teu tio Zé
já saiu pra trabalhar
e as irmãzinha tudo em casa
da patroa,
limpando o mundo
lavando a roupa
suja
preparando os melhores
almoços.

Mas Sebastião não sabe
que a noite se põe toda tarde
só pro nosso povo sonhar
e que às vezes é pesadelo
o tiro no espelho
acerta é o seu peito
perfura o silêncio
e acorda a manhã.

Mas ele não escutou.

E então desceu o beco
no fundo mais fundo sem jeito
para nunca mais voltar
Ficou lá estatelado
na porta da frente do barraco
do desesperado irmão
com a arma e as chaves na mão.

- Desce o beco não, Tião.









Baixe o livro completo em Edições Me Parió Revolução

domingo, 16 de novembro de 2014

Low Poesie


foi um tempo de magreza
extrema em que minha alma
pequena se espremia
entre um tanto de costelas  e nenhuma
caloria.

era um tempo um sal insosso.
Tempestade que me ardia
no osso. cama de engodo
em que minha alma dormia
inexistia.

era um tempo suicídio moroso
carne no encosto.serenata
pras formigas

tempo de alma espremida
relógio assoprando as cinzas
calça frouxa muda boca
sozinha

tempo de dieta da angústia
pouca gordura. injúria.
café, almoço, calúnia. no prato
o poema inacabado
sapato gasto
e
rua sem saída

do livro: Onde escondemos o ouro

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Resgate

Espremida no cargueiro
massa
prestes a se homogeneizar
saca o fone de olvido
e o mundo barco triste
se preenche de refrão.

 Temporariamente autista
 permanecerá partícula
 resguardada na sua tênue
 i n d i v i d u a l i z a ç ã o .

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O céu fica no alto

Debaixo da asa da águia
morava Soluço
filho único do bruxo
Quem-me-quer
(conhecido como Bruxo
Solidão). Soluço
sonhava um céu azul
com nuvens gordas e douradas
um sol no alto no pico

das doze. Horas de sono
com barulhos de crianças
na janela. Debaixo da asa da águia
em viagem eterna
Soluço não via nem ouvia nada
céu azul com nuvens gordas e douradas
nem barulhos de crianças na janela

O Soluço
O Soluço
não entendia
não entendia
nada não

(Para ver o céu azul
Soluço
pecisava estar no chão).




quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Inverno - Para o malungo Maloterson

Daqui há um mês outro ano
de sua ausência sentida.
Pensei escrever um poema.

Um poema que bastasse.
Um poema que trouxesse
quem sabe
a dormência
sem trair tua memória.

Pensei te dizer ainda
que a tua ausência é sentida
- vinagre invadindo a ferida -
dia após dia.

Que já nossos olhos não servem
que nossos ouvido não ouvem
que o rap só canta em silêncio
e que ainda só estamos.
Calados.

Daqui há um mês outro ano
sendo apenas suicidas.
Sendo verso inacabado.
Tentativa.


Daqui há um mês
o inverno
completa outro ano de vida

do livro: Onde escondemos o ouro

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Zero a zero

ou: quase

 


Outra poema contra o genocídio da nossa população


“Mas
nas barrigas das meninas
inda o sol ainda
brilha - rancoroso carnaval.”



Nossas mães criam seus filhos
para serem meninos
e fortes.
Entretanto o consumo
entretanto o Estado
cão magro -
roem seus ossos tão fundo
que até o descanso, o último
tem que ser autorizado.

O Estado roeu
Rivaldo
Jefferson
Ricardo

e guardou outros tantos ainda.

Depois voltou pra guardar a casa de orelhas surpreendidas:

Nesse intervalo,
Amanda gerou
Ricardo
Angelina devolveu
Rivaldo,
salvou Jefferson no Fagner e dobrou, por precaução,
a quantidade de Lucas.

De olho, o cachorro gordo percebe
nas barrigas da família
pequenas revoluções

repondo a morte com vida.
Repondo Ricardo a Ricardo
Rivaldo a Rivaldo
dobrando os soldados
perpetuando a ira

e a lira.


imagem retirada do blog: http://saudenegra.blogspot.com.br/2012/01/mp-557-e-os-direitos-das-mulheres.html


BAIXE GRÁTIS O LIVRO 

Liberdade para Nelson Mandela

Dinha
De passagem mas não a passeio

foto: Laeticia Jensen Eble

terça-feira, 1 de julho de 2014

Cemitérios Gerais

O nosso tesouro
guardamos
em vilas e jardins.

Três anos depois, o Cachorro
cavuca
o osso
termina de nos roubar.

Outra família enterra
seu ouro
no mesmo
lugar.

Do livro: Onde escondemos o ouro.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Tempo

É
o que nos falta.
Pra nossa sorte
e de mais alguns.

Enquanto isso,
juntamos os mísseis
organizados, repousam
aos pedaços de papel.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

De aqui de dentro da guerra

Já faz tempo que o meu poema ganhou vida própria. Soube, por fontes extraoficiais, que ele até viajou para outros países. Ganhou mais vida no Sarau dos Mesquiteiros com suas esquetes teatrais e até virou clipe poético - clipoético - nas mãos do Rodrigo, Mesquiteiro/as e Mundo em Foco. 
Re-compartilho o poema e o clipe.





De Aqui de Dentro da Guerra

I - Mataram Francisco

Ah.
Ser protagonista.
Ser um símbolo.
- É mais um ou menos um?

Escrevo pra corromper as estatísticas.
Escrevo para alterar o sentido de estar sozinha.

E Adélia?
Passou
a noite velando o corpo.
- Só tiro de Doze.

E o que dói nem é a morte.
É a guerra.
É somar os corpos e notar
a baixa sempre mais humana.

A última guerra romântica acontece por aqui:
São Paulo, Brasil,
Fundão do Ipiranga
Jardim São Savério
Parque Bristol, Bristão.
Mil e uma noites
a mil.
A milhão.

- Procurou, né mãe?

Ouvi os tiros mas não dei ouvidos.
Morreu alguém. Não fui ver.
É comum.
Era só isso.
De uma festa cantei, dancei, ri
( e isso não é força poética
de quem imita poesia
e põe verbos em paralelismos).
Ri muito a noite toda.

Terminou de madrugada
os tiros subindo a escada:
- Dinha, mataram Francisco.

II -
Daí a idéia de Guerra Romântica: essa guerra cara a cara, mano a mano, de mãos bem maiores que o corpo, de dedos se assassinando. A última não foi a Primeira Grande Guerra. A última é a que acontece por aqui: Que de pequena foi crescendo, pulando os muros dos guetos, se alongando, se multiplicando, como um câncer bem nutrido, como um vírus bem alojado, ora dormindo, ora explodindo, ora abafado, mas nunca inerte. Sempre resistente, sempre bem transmitido pelo contato das mãos, dos olhos, dos pés que se tropeçam, dos namorados e namoradas, do fluxo capitalista, da tela, do maço de cigarros...

III - De Aqui de Dentro da Guerra

De aqui, de dentro da guerra
qualquer tropeço é motivo.
A morte te olha nos olhos
te chama, te atrai, te cobiça.

De aqui, de dentro da guerra
não tem DIU nem camisinha
que te proteja da estúpida reprodução
da fome, da miséria
da ínfima estrutura
que abafa o cantar das favelas
antigas senzalas modernas.
Cemitério Geral das pessoas.

De aqui, de dentro da guerra
eu grito pra ser ouvida.

De aqui, de dentro da guerra
eu me armo e policio.

De aqui, de dentro da guerra
é que eu protejo meus sonhos

pra não virar a cabeça
pra não virar a palavra
pra não virar estatísticas.

Dinha

domingo, 26 de janeiro de 2014

Cidade do Sol

"Eu não moro em Heliópolis.
Moro em uma pequena vila
Com nome de santa:
Santa Cristina.
É lá que os becos se abrem.
De lá saem as crianças.
(O beco é escuro e a rua
Mais escura que o beco.)"

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Avatar de Herói

ou: Egoesclerose

"Somos atores que vestiram a carapuça e se confundiram com seus personagens"
                                                                BNegão - Prioridades


Meu avatar de herói. Criei um.
E coloquei na vitrine virtual.
Pra dançar de vez em quando,
fazer versos, vez em quando,
protestar, salvar o mundo
e mudar a cor dos olhos
quando for conveniente.

Meu avatar de herói. Criei outro.
E coloquei na estante.
Pra falar no microfone,
tirar foto, fazer pose,
protestar, salvar o sonho
e mudar a cor dos olhos
quando pressentir o tombo.

Meu avatar de herói. Criei todos.
Um para cada canto.
Um para cada espanto.
Se p a r t i  c u l a r i z a r.
Navegar no meu horário,
 e mudar a cor dos olhos
quando eu desconectar

Dinha

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ode ao Zé Povo

                                                   Em defesa do povo - um elogio ao Zé Povo...


(Cantiga de zéporvinhar)

Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão.
Zé Povo, Zé Polvo, Zé Porvim, Zé Polvim, Zé Povim, Zé Porvinhar:

Ze Porvim ninguém te gosta.
Ninguém vai teadorar.
Mesmo assim é verbo novo:
zé porvim ↔ zéporvinhar.

Eu zéporvinho
Tu zéporvinha

Ele zéporvinha
Nós zéporvinhamo
Vois zéporvinhais
Eles zeporvinha


E são muitos os nomes
sentido
é um só
Zé povo que nasce
a qualquer hora
em qualquer lugar.


Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão
danado, sarnento,
se espalha no vento e
brota do chão.

É verbo agora
ação nomeada
conjugada
esperada
rimada
(bem pobre
- zé povo do rico
é repórter)

Zé Povo do povo
não recebe ordens
faz conta de tudo
só pelo gostinho
de zéporvinhar.

Zé Povo é mato.
Zé Povo é o cão.

Tem pouco problema o Zé Povo do povo
- seu problema é o dos outros.
"Comunitária inspiração".

Zé Povo nos cuida
Zé Povo protege
se vem a polícia
Zé Povo percebe
e fica de olho
atento à novela
(Terror na Esquina
de farda e revólver)

Zé povo e seus olhos de câmeras digitais
Zé povo sem fio, internet a milhão
Zé povo e o ouvido microfone fantástico
Zé povo e a boca amplificadora de voz
Zé povo e a tomada ligada pra sempre
Zé povo lan house
ambulante
telecentro da paz
observa e inventaria
griot sem amparo
homem-otário
mulheres sem rádio
como nós,
todos nós.

Dinha