PORQUE NÓIS NUM TÁ AQUI PRA SER LEGAL

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA



Por Thiago - Poder e Revolução - Boa Resposta à pergunta "Deve Haver o dia do branco"? Comentário postado no facebook.

Antes de alguém vir falar que poderia ser dia do branco, dia do amarelo, dia do ser humano, vamos nos atentar ao seguinte fato: hoje nāo é dia do negro, mas sim da consciência negra. Isso abrange aspectos muito mais profundos. Talvez se tivéssemos o dia da consciência indígena ao invés do dia do índio, como se tem há algumas décadas, teríamos conseguido avanços mais significativos na “questão indígena”. Mas digo apenas talvez. Depois de diferenciarmos o dia "do", do dia "da", temos que voltar a atençāo para o que é "consciência", o que é ter "consciência". Partindo disso, vamos aprofundar a questāo da "consciência negra". O negro tem "consciência" da sua origem? Da sua ancestralidade? Da sua cultura? O negro tem "consciência" da beleza da cor da sua pele e da natureza de seus cabelos?....entāo.....

Mas antes de afirmar o dia da "consciência" negra, quero esclarecer uma questāo bem pertinente aos debates sobre racismo, ao sectarismo de alguns militantes, e às lagrimas que escorrem da "consciência" elitista quando citamos a palavra "branco". Quando faço alguns de meus ácidos comentários sobre racismo e cito o "branco", nāo é contra a cor da pele que estou me referindo, mas sim ao pensamento hegemônico "branco", de dominaçāo de classes, a ideologia "branca" que segrega, que violenta, que oculta e destrói, deturpa e corrompe todas as outras culturas e civilizações.

Se você defende esse "branco", é contra vc também que luto. Para o termo "negro", a questāo da cor da pele conta muito, mas porém, quando digo o "negro", estou indo muito, mas muito além da pigmentaçāo da pele. Ser "negro", é atestar a sua cultura, ser "negro" e afirmar com orgulho as suas raízes, ser "negro" é negar toda essa mentira de inferioridade cultural, religiosa e de civilidade que nos foi contado até hoje, ser "negro" é um estado de "consciência”. O "negro" teve a sua historia decapitada, a sua cultura esterilizada, teve seus filhos estuprados, e a sua origem esquartejada.

Perdemos o nosso orgulho, pois nos ocultaram a nossa própria historia, perdemos a nossa beleza, pois nunca nos trataram como semelhante, e os padrões da beleza que imperam até hoje, é do semelhante "branco". Tivemos a sensaçāo, por muito tempo, de que nāo tínhamos ancestrais, nāo tínhamos historia dos nossos pra contar. Para termos orgulho de nós mesmos, temos que ter "consciência" de nossas raízes, de nossa cultura, consciência de nossas origens.

A pergunta que muitos engasgam pra responder é, como teremos orgulho de nós mesmos sem a "consciência” do que fomos? Como teremos orgulho com um sistema educacional, que desde a pré- escola até a faculdade, faz de tudo pra trucidar a nossa historia, e para inferiorizar o nosso povo? Nas escolas infantis nos contaram histórias de heróis, de princesas, de pessoas do bem, que em nada se pareciam com a gente, nos contaram a história de mocinhos "brancos", de salvadores "brancos".

Eis que quando surgiam personagens negros na historia, ah, esses eram os bandidos, os cozinheiros, os pedintes, os maltrapilhos das histórias. como se identificar com isso? E ainda, para complicar mais tudo isso, para que estudássemos a nossa própria história, a história de nossas origens nos ensinos fundamentais, médios, e nas universidades, teve que se criar uma lei obrigando as entidades de ensino a ensinar sobre a historia de um continente que teve um peso tāo grande quanto o continente europeu para a nossa formação cultural e social, lei essa que é esquecida pelas secretarias de ensino, e que se nāo fossem a boa vontade e formaçāo de alguns de nossos professores, essa lei iria passar desapercebida pelo menos nos ensinos fundamentais e médios.

Brilhos nos olhos e calor no coraçāo nos dāo quando nos deparamos com Zumbi dos Palmares, Sandino, Joāo Candido, Kunta Kinte, Malcon X, Martin Luther King, James Brown, Clóvis Mouras e Fanons da vida, Saloma Salomāo, Eduardo Nova Flor, Malot, dentre milhares de outros que acendem em nossa alma uma esperança de que podemos sim contar a nossa historia, termos "consciência negra" e sermos agentes percursores de nossa própria história.

 Faço um convite à reflexāo, neste mês da "consciência negra". Reflitam realmente se estāo todos certos em suas concepções sobre "o que é ser branco, o que é ser negro". Que fique bem claro que só podemos nos orgulhar de nossas origens, a partir do momento em que tomamos "consciência" delas.

E antes que as pedras "brancas" sejam arremessadas sobre a minha "consciência negra", questionando o por quê nāo termos um dia da "consciência branca", o que tenho a dizer é que todos os dias nas escolas, nas universidades, nos jornais, nas novelas, no nosso trabalho, nos transportes coletivos, nos filmes, nos seriados, nos livros da escola, na nossa vivência social diária, nos cagam a "consciência branca", mas vale lembrar do "branco" que citei anteriormente....

Aos sectários que dizem que um branco nāo pode participar ou ter voz ativa nas questões de negritude, vos digo, quem separa é o "branco" e nāo nos, nessa minha caminhada encontrei tanta gente de pele branca, branquinha, que tem a "consciência" mais negra que muito preto, e encontrei também, muitos "negros" que adaptaram e tomaram para si com unhas e dentes a "consciência branca" da qual citei anteriormente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário