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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Trégua

Quem sobreviveu ainda se lembra do tempo em que São Paulo era um campo de guerra. Agora, parece ser o fim desta que é uma das mais cruéis facetas da luta de classes, o fim dos crimes de pobres contra pobres.
Parece ser o fim dos assassinatos cotidianos, do sangue escorrendo ou já seco nas vielas e ruas das quebradas. É o fim das caravanas até os cemitérios nos dias de finados. É quase o fim também das vaquinhas pro paletó de madeira e pro ônibus.
Chega de mães com seus 35kg, perambulando pelas ruas em busca de um abraço. Se pá, já era  também as metáforas com significados de morte.
Chega de luto.
Em São Paulo, nas quebradas, as pessoas estão se matando 80% menos do que há dez anos atrás. Parece que estamos diante de uma trégua, um milagre que não foi feito pelas autoridades competentes, por nenhuma política pública.
Quem mora nas quebradas sabe que, aqui, os assassinatos são sempre entendidos pelo Estado como guerra entre quadrilhas. Por isso, não são investigados, o que dá ao homicida uma espécie de privilégio, quando comparado ao tratamento dado a outros criminosos como assaltantes, por exemplo.
Então, por duas décadas (os anos 80 e 90), os homicidas agiram livremente nas favelas de SP. Não são raras as histórias de assassinos extremamente poderosos no seu local de moradia. Algumas regiões anotavam a cifra de 60 assassinatos em um único mês e o Estado nada fazia, nada fez – embora diga o contrário.
Agora, nas favelas de SP, qualquer morador maior de 20 anos sabe explicar o motivo da redução de mortes. Mas isso interessa a poucos, pois a favela é pouco estudada, exceto por antropólogos. Estes, diga-se de passagem, muitas vezes a estudam de forma irresponsável  e, muitas vezes, sequer acreditam que somos verdadeiras comunidades.
Munidos de um método minimamente coerente, perceberíamos que a favela representa uma parcela da classe trabalhadora que realiza os trabalhos mais duros, pelos menores salários, sem a solidariedade da classe média, e sem a proteção do Estado.
Mas agora, correndo menos risco de sermos assassinados.
Ainda assim, é triste.

DU

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