PORQUE NÓIS NUM TÁ AQUI PRA SER LEGAL

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O rico mágico e o pobre alquimista

As pessoas ricas se relacionam com o mundo como se fossem mágicas. Como se fossem dotadas de um poder sobrenatural. Ao se aproximarem de uma porta, por exemplo, esta se abre sem que tenha sido tocada ou acionada por qualquer tipo de controle remoto. O mesmo ocorre com as refeições. Ao longo do dia, sem tocar em nada, os ricos veem a transformação dos alimentos, de simples frutas a doces complexos.
Enquanto isso, as pessoas pobres, da base, do chão da fábrica, observam os ilusionistas exibindo-se e tirando da cartola coelhinhos brancos. Observam os grandes feitos industriais, os carros e computadores e pensam: "esse mágico é bom pra caramba. Estudou pra caramba e agora faz a mágica com destreza. E eu que não sei fazer internet, videocassete, uns carro loco... atrasado eu to um pouco sim. É. Eu acho."
E o Zé fica convencido de que o rico é o mágico, de que são eles mesmos os responsáveis por todas as transformações.E vai pra casa pensando que, se fosse mágico, não tinha as mãos cheias de calos, não tinha que apertar parafuso, bater prego, varrer o chão, descascar o amendoim, o abacaxi, digitar nas teclas, guiar o carro, preparar o pão, apertar o botão...
Se fosse mágico, só teria calos na boca e nas partes. Porque defecar e comer é só o que fazem os mágicos, como os bebês.
E essa inveja se confunde com admiração, porque viver com magia, transformando coisas é o sonho do pobre; passa-se então a exaltar os poderosos que tanto fizeram até conquistarem seus postos.
Até que um dia o Zé acorda e percebe que a mágica era só ilusionismo. O Mr. MX revelou que era o pobre, de olhos tapados pelos capangas inimigos, quem fazia as transformações.
Percebeu que a mágica não existia – o que havia era trabalho – o seu trabalho – essa alquimia que separa o trigo e o transforma em pão.
Porque só o trabalho transforma uma coisa em outra. O mais é puro ilusionismo.
Du

2 comentários:

  1. Realmente o sonho do pobre é ser rico, porem não se trata de uma inveja ou admiração por um determinado padrão de vida e sim por revindicar por uma vida mais justa, chefa de ser sempre o empregado e dos filhos serem empregados dos filhos dos patrões, não temos herança, não temos nas mãos a mancha da apropriação indevida de terras e de propriedades. O que temos é que nos unir contra a exploração e o capitalismo, não contribuído para enriquecer mais a elite. Belo texto.

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