PORQUE NÓIS NUM TÁ AQUI PRA SER LEGAL

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

De aqui de dentro da guerra

Já faz tempo que o meu poema ganhou vida própria. Soube, por fontes extraoficiais, que ele até viajou para outros países. Ganhou mais vida no Sarau dos Mesquiteiros com suas esquetes teatrais e até virou clipe poético - clipoético - nas mãos do Rodrigo, Mesquiteiro/as e Mundo em Foco. 
Re-compartilho o poema e o clipe.





De Aqui de Dentro da Guerra

I - Mataram Francisco

Ah.
Ser protagonista.
Ser um símbolo.
- É mais um ou menos um?

Escrevo pra corromper as estatísticas.
Escrevo para alterar o sentido de estar sozinha.

E Adélia?
Passou
a noite velando o corpo.
- Só tiro de Doze.

E o que dói nem é a morte.
É a guerra.
É somar os corpos e notar
a baixa sempre mais humana.

A última guerra romântica acontece por aqui:
São Paulo, Brasil,
Fundão do Ipiranga
Jardim São Savério
Parque Bristol, Bristão.
Mil e uma noites
a mil.
A milhão.

- Procurou, né mãe?

Ouvi os tiros mas não dei ouvidos.
Morreu alguém. Não fui ver.
É comum.
Era só isso.
De uma festa cantei, dancei, ri
( e isso não é força poética
de quem imita poesia
e põe verbos em paralelismos).
Ri muito a noite toda.

Terminou de madrugada
os tiros subindo a escada:
- Dinha, mataram Francisco.

II -
Daí a idéia de Guerra Romântica: essa guerra cara a cara, mano a mano, de mãos bem maiores que o corpo, de dedos se assassinando. A última não foi a Primeira Grande Guerra. A última é a que acontece por aqui: Que de pequena foi crescendo, pulando os muros dos guetos, se alongando, se multiplicando, como um câncer bem nutrido, como um vírus bem alojado, ora dormindo, ora explodindo, ora abafado, mas nunca inerte. Sempre resistente, sempre bem transmitido pelo contato das mãos, dos olhos, dos pés que se tropeçam, dos namorados e namoradas, do fluxo capitalista, da tela, do maço de cigarros...

III - De Aqui de Dentro da Guerra

De aqui, de dentro da guerra
qualquer tropeço é motivo.
A morte te olha nos olhos
te chama, te atrai, te cobiça.

De aqui, de dentro da guerra
não tem DIU nem camisinha
que te proteja da estúpida reprodução
da fome, da miséria
da ínfima estrutura
que abafa o cantar das favelas
antigas senzalas modernas.
Cemitério Geral das pessoas.

De aqui, de dentro da guerra
eu grito pra ser ouvida.

De aqui, de dentro da guerra
eu me armo e policio.

De aqui, de dentro da guerra
é que eu protejo meus sonhos

pra não virar a cabeça
pra não virar a palavra
pra não virar estatísticas.

Dinha

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