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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Não há capitalismo sem racismo

A COR DO PRIVILÉGIO

Falando de modo grosseiro, luta de classes é o embate travado entre empregados e patrões. Os primeiros tentam se libertar da exploração econômica e os últimos tentam mantê-la, pois dela advém o seu lucro. Entre ambos temos a classe média tentando equilibrar-se entre seu pouco dinheiro e seu horror aos pobres.
Nos tempos em que o espectro do comunismo rondava mais de perto o Brasil muitos dos meus amigos viviam em estado de terror, pois a propaganda oficial dizia que, nesse horroroso sistema, quem porventura fosse dono de duas casas teria de doar uma, quem tinha dois carros, teria que se desfazer de um, e assim por diante. Mas o medo dos meus amigos sempre me pareceu bastante infundado, já que todos eles moravam em barracos apertados na beira do córrego.
O medo deles e das outras pessoas era, na verdade, apenas uma reprodução do discurso das elites nacionais. Discurso esse estrategicamente plantado para manter o domínio de uma classe sobre a outra – já que o maior medo das elites sempre foi, justamente, a emancipação financeira dos pobres. Pobres libertos significa ricos encarcerados. E como no Brasil, via de regra, ser negro é ser pobre, a luta de classe se revelará também como luta de raças. Assim, o racismo seria também uma faceta da luta de classes.
Nesse viés, temos, de um lado, as pessoas socialmente brancas (a elite de pele clara e cabelos claros ou tingidos à força) colhendo os frutos de séculos de escravidão e racismo, com maior poder aquisitivo, mais anos de estudos, maior expectativa de vida, etc; e de outro temos o povo negro (composto por pretos e pardos), inversamente, com renda inferior à dos brancos, menos escolaridade, etc.
Se o maior medo subjetivo da pessoa negra é o retorno aos tempos malditos da escravidão. O maior medo da pessoa branca é o de um dia assumir o papel daquele que foi escravizado.
Além disso, pessoas socialmente brancas acreditam, de certa forma, que perder os privilégios trazidos pelo racismo equivale a ser aprisionado. Isto é, sabem que a libertação dos negros está intimamente ligada à sua prisão. Por que não viveriam sem os privilégios estabelecidos. Não é de graça sua posição reacionária diante da discussão antirracista e de políticas afirmativas como as cotas, por exemplo.
A igualdade racial tende , por exemplo, a tirar dos brancos o título de beleza padrão, diminuir seu acesso ao ensino superior e aos papéis socialmente valorizados. Busca-se, de todas as formas, manter as coisas como estão, pois o despertar massivo da negritude geraria conflitos.
As mesmas pessoas que compreendem o embate iminente proveniente da tomada de consciência do povo negro, fingem desconhecer o fato de que já existe um conflito posto onde negros e negras são sistematicamente vitimados.
Assim, o povo branco tende a demonstrar desprezo diante das dores causadas pelo racismo, tendem a se incomodar mais quando encontram um negro em posição de poder do que quando o vê na lama. Usam o desprezo como arma do racismo...
Se os brancos brasileiros não criaram a KKK tupiniquim, seu desprezo diante dos problemas do racismo impediu, por exemplo, que o cinema nacional, a música e a literatura se ocupassem da problemática do racismo, como acertadamente fizeram os Judeus ao financiarem os filmes antinazistas e, por isso, criaram um sentimento universal de repúdio ao nazismo que alimenta a vergonha da Alemanha diante do fato de ter protagonizado esse momento histórico.
Essas coisas fazem com que nos indignemos mais com os terrores do nazi-facismo do que com os da escravidão. Assim como nos incomodamos mais com a ditadura de 64/85 que deixou desamparadas cerca de 1000 famílias, do que com a ditadura atual a “democracia militar”, que desampara três a cada quatro famílias negras.
Além disso, as pessoas socialmente brancas não sentem uma só gota de vergonha pelo fato de o Brasil ter sido o último país no mundo a abolir a escravidão, nem de ter proibido os ex-escravos de comprarem suas próprias terras ou de terem acreditado durante muito tempo que no Brasil não havia racismo.
Então, não é que não percebam nada disso. A verdade é que toda vez que ouvem falar de racismo, é como se um velho fantasma lhes olhasse através do espelho, reprovando suas atitudes e ameaçando-os de vingança. Sentem um desconforto e só conseguem pensar em escapar das acusações, da perda de privilégios ilegítimos e da desvalorização social. Em suma, morrem de medo da possibilidade de ocuparem o lugar mais terrível do capitalismo que, no Brasil, historicamente tem sido empurrado ao povo negro.
Vale lembrar: nem todas as pessoas socialmente brancas são racistas - o que é ótimo -, mas ainda assim, colhem os privilégios advindos de uma sociedade pautada no preconceito baseado na cor da pele.
E os meus amigos, aqueles que temiam o espectro do comunismo, hoje em dia temem despertar o “fantasma dos conflitos raciais”. Nem percebem que já fazem parte dele, são as vítimas. Dormem tranquilamente, abraçados ao seu medo.

Du 

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